8 dicas para quem trabalha (ou vai trabalhar) com alguém autista

Neste artigo você vai ver:

Hoje as empresas estão mais diversas, mas será que estão mais inclusivas? Será que conhecem todas as características de públicos diversos e conseguem atender às suas necessidades? Enquanto autista eu posso afirmar que ainda há muita coisa que a maior parte das pessoas não sabe. Por isso, neste artigo eu vou falar sobre como integrar uma pessoa autista no time.

Vão ser dicas muito úteis para quem trabalha (ou vai trabalhar) com alguém autista, seja como par ou em uma posição de gestão.

O que eu preciso saber para trabalhar com pessoas autistas?

Você joga RPG? Sabe quando fica se perguntando como seria se você pudesse ver seus atributos na vida real? Então, quando eu estava no ensino médio sentia algo parecido diariamente. 

Muitas vezes eu só queria que alguns professores conseguissem perceber o quanto eu estava me sentindo sensorialmente exausta, já que eu nunca conseguia colocar isso em palavras. Seria bem mais fácil se eu pudesse visualizar uma porcentagem. 

Essa dificuldade de comunicar e até mesmo perceber sobrecargas sensoriais é algo bem comum entre autistas.

Inclusive, neste artigo aqui eu falo sobre a minha experiência aprendendo programação no ensino médio, faculdade e no mercado de trabalho como autista. Recomendo a leitura, também recomendo fotos de gatos dormindo contentes. 

Na foto temos um gato branco com detalhes rajados cinzas dormindo de barriga pra cima e uma expressão tranquila no rosto.

Nesse artigo eu listei algumas características de pessoas autistas, basicamente o que teria na nossa ficha de personagem no RPG. E da mesma forma que clérigo são diferentes de magos (e diferentes magos têm diferentes magias), é importante dizer que as pessoas autistas são diferentes e além de conhecer seus principais atributos é importante conversar com elas e conhecer suas preferências.

1 – Contato Visual 

Muitas pessoas autistas têm dificuldades de fazer contato visual, principalmente de forma contínua. Inclusive, às vezes se concentram melhor e se sentem mais confortáveis quando olham para outro lugar ou outra coisa quando conversam com você. 

Então não pense que não estamos prestando atenção! O esforço de fazer contato visual pode ser muito cansativo e realmente causar uma falta de atenção.

2 – Hiperfoco 

Sabe o seu tópico favorito? Então, para pessoas autistas isso é uma coisa muito séria!  

Tanto, que às vezes acabamos inserindo esses tópicos em conversas que não parecem ter muita relação com eles. Mas nós pensamos muito nesse hiperfoco e para nós, quase tudo acaba lembrando um pouco deles.

Falar desses tópicos acaba trazendo um boost pro humor e muitas vezes vamos usar qualquer chance pra tentar achar pessoas que também se interessam por aquilo. 

Alguém quer ouvir sobre a minha coleção de Halloween? 

Ou ver fotos do meu gato?

Outro lado do hiperfoco é o estado de hiperfoco. Isso é excelente no trabalho durante uma tarefa e pode ser induzido usando outros interesses nossos. Por exemplo: se eu tento aprender um novo conceito de programação e o exemplo usa gatos, eu aprendo muito mais rápido. Por isso, busque proporcionar um ambiente de trabalho com poucas distrações e interrupções além de usar esses hiperfocos a nosso favor na hora de dar exemplos ou explicar coisas que não entendemos. Nossa produtividade (e o sucesso da missão) agradece. 

3 – Direcionamento 

Com muita frequência as pessoas autistas precisam de direcionamentos mais bem elaborados. Nada de “Vá no mercado e busque duas caixas de ovos e leite”, pois minha resposta vai ser:

  • Qual mercado? 
  • Que tamanho de caixa? 
  • O que é uma caixa de ovos e leite? 
  • Qual tipo e marca de leite? 
  • Você vai fazer bolo? 
  • É só isso?
  • (entre outras muitas questões). 

Tente detalhar as tarefas (pense, por exemplo, nas suas próprias dúvidas) e responda qualquer dúvida sem ser condescendente (Afinal, um dos pilares da nossa cultura é zupper ajuda zupper!). Muitas vezes podemos ter dificuldades pensando em como deixar a tarefa mais explicativa e só vamos ter dúvidas na hora de fazer a tarefa também.

4 – Integração

Quando existe uma mudança de time, talvez exista uma dificuldade inicial na integração, principalmente por estar conhecendo várias pessoas ao mesmo tempo, mudando de projeto e de rotina. 

Então vale a pena tentar se apresentar e dar apoio extra nesse período, mostrar pessoas que podem ajudar com dúvidas e compartilhar recursos, mas também pedir feedbacks e sugestões de recursos. 

E por isso e pelo estresse causado pela sensação de instabilidade, trocas frequentes de projeto não são recomendadas.

5 – Sobrecarga sensorial 

Uma sobrecarga sensorial pode ser causada por vários fatores, por exemplo, sons, visuais, texturas e cheiros específicos. Inclusive, a causa de uma sobrecarga sensorial varia muito de uma pessoa para outra. 

Eu, por exemplo, não suporto quando um talher de metal cai em outra superfície metálica ou quando muitos barulhos acontecem ao mesmo tempo (mas também pode acontecer por causa do clima, por estar com dor de cabeça, entre outros motivos). 

Além disso, muitos autistas escutam todos os sons com a mesma importância, ou seja, enquanto algumas pessoas focam no trabalho e conseguem ignorar os sons ambientes (os barulhos dos carros, dos vizinhos, eletrodomésticos etc) um autista vai ser afetado por todos esses sons ao mesmo tempo. E é essa mistura de sons  que pode causar uma sobrecarga sensorial (imagine se o seu celular não parasse de tocar o dia todo ou se alguém colocasse música alta enquanto você tenta ler um livro).

Essa sobrecarga pode causar choro, irritação, dificuldade de concentração e em níveis maiores pode acabar com o nosso dia. Então, pode ser difícil para pessoas que não são autistas entender que precisamos:

  • de uns minutos entre reuniões; 
  • desligar a câmera; 
  • dar uma pausinha em um refinamento meio longo; 
  • ou só de um tempinho pra lidar com algo do ambiente externo para não sobrecarregar.  

6 – Pesquisa 

Pesquisar um pouco sobre o autismo é muito bom para quem está recebendo pessoas autistas na equipe. Porém, muitas vezes, na melhor das intenções você pode acabar pegando informações de fontes capacitistas

Para evitar isso, sempre é recomendado buscar artigos, vídeos ou outros recursos feitos por pessoas autistas e pedir recomendações para pessoas autistas que se sentem confortáveis falando sobre. 

Além disso, você que é líder de uma pessoa autista deve ter uma conversa com ela e entender as suas individualidades. Não custa repetir: toda pessoa é diferente, então o que pode gerar uma crise em uma pessoa, pode ser diferente da outra.

Isso, claro, além de lembrar do fundamental: autismo não é uma doença e não pode, nem precisa, ser curado e você não pode pegar ou desenvolver autismo (no máximo você pode nascer autista e ser diagnosticado meio tarde, já que o diagnóstico é complicado).

Inclusive, temos alguns conteúdos interessantes aqui no blog da Zup, alguns deles eu escrevi então eu recomendo (mas sou completamente imparcial 😉). 

Destaco o ZupCast sobre Neurodiversidade e Tecnologia, onde um time de zuppers que são neurodiversas conta suas trajetórias:

7 – Espectro

Não é de fantasma, mas sim tipo um conjunto de características diversas. 

O espectro autista é cheio de diversidade e isso quer dizer que provavelmente duas pessoas autistas não vão ter as mesmas características, experiências e formas de lidar com isso.

Além disso,  quer dizer também que não existe uma régua para medir o “quão” autista uma pessoa é. Por exemplo, talvez uma outra pessoa autista tenha mais dificuldades socializando, mas menos dificuldades sensoriais do que eu. 

Então ouvir “mas tal pessoa é bem mais autista” só serve pra dizer “eu não te achei autista o suficiente” e acabar com a nossa paciência.

8 – Literalidade

A literalidade é um assunto muito complexo e afeta todos nós de formas muito diferentes de acordo com a nossa socialização, características individuais e outras experiências. Acredite, dava para escrever um artigo inteiro só sobre literalidade, mas vou resumir alguns pontos.

Autistas podem ter como característica a literalidade, ou seja, têm dificuldade em compreender figuras de linguagem ou conceitos abstratos. 

Por exemplo, se você falar “tem um elefante na sala” a pessoa autista pode literalmente procurar por um elefante na sala (nem que seja de porcelana). Isso acontece principalmente com expressões desconhecidas, mas muitas vezes exageros podem ser tomados literalmente .

Em outras palavras, a melhor forma de se expressar é falar “tem um problema acontecendo,  que todo mundo já sabe a respeito, mas ninguém quer falar sobre”, ou seja, adotar uma linguagem mais concreta, clara e didática .

Já outros autistas podem ter se condicionado a procurar diversos significados em uma expressão que estão ouvindo pela primeira vez para, por exemplo, evitar bullying, esse tipo de condicionamento é um exercício mental muito cansativo e não é algo a ser visto como “melhor”, só uma resposta diferente a experiências externas.

Então claro que algumas vezes a pessoa autista já entendeu o significado de alguma expressão ou criou alguns artifícios para entender a comunicação que está sendo feita. Inclusive, muitas vezes, uma pessoa autista vai usar figuras de linguagem. 

Mas para evitar que a comunicação não fique clara para todo mundo (e para evitar esses possíveis exercícios mentais cansativos) e evitar interpretações erradas, o melhor é sempre ser literal. 

Bônus: Dicas para reuniões e eventos online inclusivos para pessoas com autismo

Até agora dei dicas mais gerais sobre como receber um autista no time, mas acho importante falar de reuniões e eventos online. Até porque hoje em dia, seja por conta da pandemia ou pelo modelo de trabalho remoto cada vez mais adotado em empresas, quase tudo vira uma chamada (ou uma live) no Google Meet, Microsoft teams, Zoom etc. 

Então, eis algumas dicas para que pessoas autistas do seu time tenham uma experiência melhor, seja em reuniões ou em eventos online: 

Reuniões

Se você for liderança e tiver autista(s) no seu time, separe um tempo para conhecê-las melhor e perguntar “Como garanto que as reuniões do time serão inclusivas para você(s)?”. Além disso, mantenha um espaço aberto para que ela tenha segurança em trazer outras questões para você, caso sinta a necessidade. 

Importante: repasse essa informação sempre que alguém for conduzir papos ou palestras com o seu time.

Agora vamos conhecer algumas dicas:

  • Não exija que a pessoa ligue a câmera, ela esteja falando ou não.  Se houver alguém no time que precisa fazer leitura labial, então peça para que a pessoa abra a câmera apenas quando for falar.
  • Se for agendar uma reunião com uma pessoa autista, analise a sua agenda e veja se não existem eventos muito próximos e com muita frequência. Reuniões seguidas podem causar estresse, esgotamento e sobrecarga (mesmo que aconteça uma vez só). Tente não reagendar reuniões recorrentes, essas reuniões podem ser uma parte da rotina da pessoa e mudar isso pode causar estresse.
  • Antes de agendar a reunião, pergunte-se: “Precisamos mesmo de uma call, ou consigo falar com essa pessoa por chat e/ou e-mail?” Além de evitar mais uma interação que pode desgastar a pessoa, uma reunião quebra o foco de pessoas autistas e elas vão precisar de tempo para voltar para suas atividades.
  • Em caso de treinamentos ou planejamentos, tente compartilhar o material com antecedência. Algumas pessoas podem levar tempo para processar informações, principalmente quando faladas. Por isso, ler com antecedência e já ter questionamentos pode ser muito benéfico. Se não for possível, mandar o conteúdo depois também pode ajudar.
  • Ao agendar a reunião, envie a pauta e se mantenha a ela. Evite perder o foco. 
  • Ao iniciar uma reunião fale os tópicos que serão abordados e sua ordem, essa previsibilidade é importante para pessoas no espectro. 
  • Peça para as pessoas presentes utilizarem a ferramenta de levantar a mão, siga a fila, e se possível, separe um momento para perguntas, evitando interrupções.
  • Garanta que todas as pessoas que não estão falando estejam com os microfones desligados. Pessoas podem ter dificuldades de processamento sonoro. Assim, sons ambientes de quem está com o microfone aberto (um carro passando, o cachorro latindo, a obra do vizinho etc) podem atrapalhar o seu foco.

Eventos online 

Você não saberá se terão autistas ou não no evento, certo? Então tente ao máximo seguir as recomendações que demos anteriormente. Sendo os principais: 

  • Acessibilidade comunicacional – cuidado com as figuras de linguagem, lembre-se da literalidade.
  • Anuncie os tópicos que serão abordados logo no início e siga a agenda proposta.
  • Tente mandar algum material escrito antes do evento com os conteúdos que serão  abordados (se não for possível enviar antes, pode ser no depois do evento também).
  • Cuidado com muitos sons no ambiente que você está. Acione a opção de retirar ruídos externos do seu microfone. E peça para quem não está falando manter o microfone desligado. 
  • Não use barulhos altos ou luzes fortes sem aviso prévio, isso pode instantaneamente causar uma sobrecarga sensorial.
  • Não exija câmeras ligadas. Deixe como sugestão para quem se sentir à vontade ligar.

Conclusão

Com direcionamento e um ambiente adequado, todo mundo trabalha muito melhor. Então vale a pena ter atenção a essas coisas na hora de buscar proporcionar uma melhor experiência de trabalho para autistas.

Vale lembrar: nenhuma pessoa autista é igual a outra! Então não se esqueça de conversar com a pessoa sobre o que está bom, o que pode melhorar e como fazer essas melhorias. Tente ouvir feedbacks e pergunte sobre as medidas propostas, ou peça sugestões de melhorias de acordo com as reclamações apresentadas.

Agora você tem as principais informações para ter sucesso com uma pessoa autista no seu grupo de aventureiros. Bora concluir a missão e avançar na campanha! (Ou só desenvolver o projeto e tentar melhorar a experiência das pessoas nele)

O que você achou dessas dicas? Tem mais sugestões? Conta para a gente nos comentários.

Capa do artigo sobre como integrar uma pessoa autista no time, onde existe um time fazendo um trabalho em grupo sentados no chão, acompanhados de notebooks e folhas.
Foto - Wanessa Ribeiro
Desenvolvedora front-end
Desenvolvedora autista apaixonada por front-end, gatos e moda histórica. Provavelmente pesquisando sobre um desses assuntos nesse exato momento.

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