Sustentabilidade emocional na gestão: como encontrar equilíbrio

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Não é surpresa para ninguém que saúde mental, assunto principalmente potencializado pela pandemia, é um hot topic na estratégia das organizações atualmente. Você sabia que em 2019 (antes da pandemia), segundo a OMS (Órgão Mundial de Saúde) o Brasil era o país mais ansioso do mundo? No mesmo discurso de olhar em direção a saúde mental do time surge o conceito de sustentabilidade emocional. 

O quanto temos usado nossos recursos emocionais em equilíbrio com nossos gastos? Como conseguimos encontrar coerência entre rotinas de gestão e essa tal de sustentabilidade emocional? Como praticá-la no dia a dia? Vamos ver tudo isso e muito mais neste artigo!

Onde nos encontramos

Para além das incertezas do cenário pandêmico, para quem enfrentou o modelo de home office, temos e tivemos que separar nossa rotina pessoal e profissional sem nenhuma separação de espaço, sendo tudo dentro de casa. Acordar de manhã, olhar pro lado e ter a sensação que nossos afazeres estão nos encarando aumenta nossos níveis de ansiedade e autocobrança. 

Inclusive,  confira as lições que aprendemos depois de um ano de pandemia do Covid-19

Para além do julgamento que sentimos do trabalho enquanto almoçamos, tiramos um tempo pra pegar um café ou brincamos com nossos pets, ele acaba sendo uma das únicas fontes de prazer e realização pessoal em um contexto de restrições. Pense comigo, ir a academia, almoçar com um amigo, ver aquele filme da Marvel no cinema, todos esses recursos e até papéis que desempenhávamos foram proibidos e até banidos do nosso dia a dia por um tempo considerável, fazendo nossos holofotes se voltarem ao nosso trabalho.

“Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”. Se você ocupa um papel de gestão, as responsabilidades são ainda maiores, como disse Tio Ben. Você tinha um time de pessoas para acalmar e direcionar (sendo que às vezes você nem tinha uma direção). 

O período comercial foi estendido para tempo integral se misturando às atividades de casa. Você desenvolveu uma habilidade muito bem nesses tempos: de ser multifuncional. Você responde três chats enquanto está em uma reunião já agendando a próxima. Isso quando sua internet não atrapalha e dá aquela oscilada. Pular de reunião em reunião sem ter um espaço adequado para refeições também ficou comum. Sem falar na conciliação com o “restante” da sua vida: casa e família. 

Viver no futuro, resolver problemas enquanto você está desempenhando outra tarefa exige muito de nós. E é isso que estamos fazendo todos os dias.

Esgotando nossos recursos: burnout

Dados da International Stress Management Association no Brasil (Isma-BR), citado na edição de agosto de 2021 da revista “Você RH”, estimam que 33 milhões de brasileiros já tenham sofrido com o Burnout – Síndrome do esgotamento profissional. 

O Burnout é um distúrbio emocional, ou seja, um desequilíbrio (até posso dizer esgotamento) dos seus recursos emocionais. Estamos falando de sintomas como exaustão extrema, estresse, esgotamento físico, insônia, irritabilidade, agressividade e até lapsos de memória resultantes de situações de trabalho de alta pressão.

É importante lembrar que o diagnóstico desta síndrome só pode ser feito por profissionais da saúde. Caso você ou alguém próximo esteja apresentando algum destes sintomas de forma recorrente, busque ajuda qualificada!

Estresse = Sucesso?

Um ponto de alerta para nós é o quanto estar “na correria” é normal ou até um pré-requisito no mercado de trabalho. 

  • O quanto associamos estresse ao sucesso? 
  • Quantas vezes você recusou momentos com sua família, amigos ou até de lazer colocando a responsabilidade no trabalho? 
  • O quanto romantizamos e naturalizamos essa rotina estressante a ponto de entrarmos em uma inércia e comprometermos nossa saúde mental? 

Está tudo bem você virar uma noite por conta de uma entrega ou para resolver o problema certo, desde que isso seja uma exceção e não uma regra. O problema está quando isso se torna um padrão e afeta sua qualidade de vida, seu sono, suas relações e sua saúde mental.

O quanto você tem consciência dos seus limites? Isso mesmo, seus limites. Possuímos recursos finitos que precisam ser recarregados de tempos em tempos. Para algumas pessoas, virar a noite pode ser tranquilo, enquanto para outras exige uma carga de energia maior. E apenas você saberá o quanto determinada situação te demandou. 

Com qual periodicidade você tem olhado para o seu estoque de energia de forma realista e ao mesmo tempo com autocompaixão?

O conceito de sustentabilidade emocional

Assim como no meio ambiente, é importante entrarmos em harmonia com os recursos emocionais que temos para que eles não se esgotem. Em outras palavras, estamos falando de encontrar um ponto de equilíbrio entre o que é exigido de nós pelo ambiente externo e os recursos que temos a oferecer. E nem sempre iremos estabelecer um “yin-yang” perfeito. 

O objetivo do conceito de sustentabilidade emocional tange o preventivo, para que o esgotamento total não chegue sem ser percebido e tenha efeitos irreversíveis, impactando nosso bem-estar e qualidade de vida. Como, por exemplo, o desenvolvimento da síndrome de burnout.

Aqui estamos falando sobre você vestir a camisa da empresa sim, desde que você vista também a sua roupa para fazer atividade física e seu pijama. É entender que não existe separação entre o eu “pessoal” e o “profissional”. O cuidado está em olhar para as várias esferas da nossa vida, de forma realista e mapear nossos “pratinhos”, analisando o que é prioridade, o que pode ser guardado e entender que alguns irão cair. 

E geralmente, deixamos os pratinhos de “autocuidado” quebrarem, porque eles só envolvem uma pessoa, nós mesmos. Que tal pensarmos em um revezamento? Em planejar esse autocuidado. 

Sustentabilidade emocional é sobre como podemos buscar recursos psíquicos para nos mantermos na vida não só nos momentos felizes mas nos tristes também. Ter autoconsciência de nossos limites, comunicá-los e estabelecê-los.

Como aplicar a sustentabilidade emocional no dia a dia? Comece por você!

Um dos pontos mais importantes de toda esta discussão é que para praticar a sustentabilidade emocional e ter saúde mental precisamos exercitar nossa autocompaixão primeiro. Exato, olhar para si como um ser humano, com 24 horas por dia que divide sua atenção em vários campos da vida, com pouco ou quase nenhum controle sobre o que acontece ou deixa de acontecer. Não precisamos e não vamos dar conta de tudo. Entender isso pode ser libertador. 

Mas como fazer isso? 

Uma das formas de praticar a sustentabilidade emocional é compartilhar com as pessoas que você confia sobre suas limitações, erros e tolerâncias, ou seja, se expor, ser autêntico. Abraçar suas vulnerabilidades e comunicá-las de forma assertiva para as pessoas ao seu redor irá aproximar e até inspirar seu time e pares a jogarem suas capas de herói fora. 

Outra forma é saber priorizar. Entendendo a importância da flexibilidade, já que sua prioridade hoje pode não ser a mesma de amanhã – e tudo bem. Sua agenda é equilibrada? Esse olhar e avaliação é muito individual. 

Gestão de energia durante a semana

Uma boa prática para ter uma agenda equilibrada é buscar fazer uma gestão da sua energia durante a semana.

Mapeie durante a semana as agendas que exigem uma carga de energia maior, seja por conta do tempo, da entrega, do assunto da reunião, enfim. Depois analise em quais momentos você recarrega essa energia. Pode ser aumentando sua pausa para o almoço, ficando com seu filho na parte da manhã, agendando um passeio no final de semana, comendo sua comida favorita (sushi sempre me ajuda)… Cada um terá seus meios!

Dica: respeite seu tempo e energia. Lembre-se: não vamos abraçar o mundo. Sua agenda precisa refletir autocompaixão e não aumentar sua carga de ansiedade. Uma atividade física, um momento de relaxamento, estar com alguém querido, praticar um hobby são coisas muito importantes, mas que precisam trazer bem-estar e descompressão e não virar mais uma obrigação estressante. 

Se sua agenda estiver muito caótica insira de forma tímida algo que seja importante para você e que só leve alguns minutos do seu dia, por exemplo, comer algo que gosta, tomar um café, ver um episódio de uma série ou ler algumas páginas do livro. 

Entenda que alguns problemas ou desafios, nesta fase, podem exigir mais do seu tempo, atenção e energia. Se planeje para quando as coisas estabilizarem, você tenha o seu momento de recarga. 

Como cascatear uma cultura de sustentabilidade emocional para o time?

Depois de começar por você, compartilhe esses aprendizados com seu time. Promova momentos de autoconhecimento e reflexão em reuniões de time ou em conversas individuais. Comece contando sobre você e depois peça para que as pessoas compartilhem como são suas rotinas, o que gostam de fazer, o que tira energia delas e como se recarregam. Pense em momentos como happy hours, brincadeiras, dinâmicas, doações de conhecimento para criação de vínculo e liberdade entre as pessoas do time. 

Pensando no livro “Os 5 desafios das equipes”, por Patrick Lencioni, o primeiro desafio abordado é a ausência de confiança, que é colocada como a principal base da pirâmide de organização de uma equipe. A não abertura das pessoas para se mostrarem vulneráveis e compartilharem com o time aspectos da vida profissional ou até pessoal dificulta o relacionamento, maturidade e construção conjunta. Em outras palavras, se quer que seu time cresça exponencialmente, o primeiro passo é trabalhar a confiança! 

Lembrando: esses momentos precisam ser autênticos e genuínos, e não simplesmente para cumprir uma agenda (até porque de agenda estamos todo mundo está cheio).

De tempos em tempos insira momentos de descompressão na sua agenda (como viagens e dias de folga) e comunique isso para o time, isso dará mais tranquilidade para que as pessoas façam o mesmo. Seja autêntico e realista: compartilhe também que em alguns momentos terão desafios que exigiram mais, mas traga sempre o propósito por trás. 

No final, a transparência, comunicação e abertura são as formas de cascatear a sustentabilidade emocional em nossos times!

É sobre isso: entendermos que não somos super-heróis

Não existe fórmula mágica. Não existe uma fase perfeita da nossa vida em que tudo estará mil maravilhas. O estresse e a correria do dia a dia são aspectos estruturais da nossa cultura, não conseguimos controlar e mudar isso. 

O indivíduo que possui saúde mental é aquele que consegue aproveitar os bons momentos da vida e navegar pelos ruins, sabendo que possui ajuda, seja de outras pessoas ou de recursos emocionais. O conceito de saúde mental caminha junto com o de sustentabilidade emocional, sendo a busca e a prática pelo equilíbrio entre nossos recursos internos e sobre o que é exigido de nós. 

Este artigo não é sobre como maquiar nossa rotina e inserir uma positividade falsa ou até tóxica. É sobre abraçarmos nossa realidade e analisarmos como passar por um momento mais demandante com energia no estoque. 

Guarde sua capa de herói para o dia das bruxas ou uma festa à fantasia. Lideranças são seres humanos: com problemas em casa, dificuldades, dias bons e dias ruins. 

Se aproprie e abrace esta realidade, inserindo, na medida do possível, momentos e atividades que te fazem bem, que são prazerosos e irão te reenergizar para as lutas futuras. É sobre isso, e está tudo bem!

Capa do artigo 'Sustentabilidade emocional na gestão" com a silhueta de uma pessoa em um fundo azul claro. Dentro da silhueta há uma harmonia de folhas e flores, mostrando equilíbrio.
Foto Bia Lopes
Business Partner
Psicóloga, apaixonada por desenvolvimento de pessoas e conversas sobre carreira, que acredita que a base de tudo é nosso autoconhecimento. Amante do universo Disney e comida japonesa.

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