O que UX Writers e Programadores têm em comum?

14/7/2020
Bruna Lemes
Bruna Lemes
UX Writer

Quando não está escrevendo para interfaces digitais e chatbots, está cozinhando ou comendo.

Está sem tempo para ler? Aperte o play para escutar o artigo.

Tem muita gente atuando como UX Writer simplesmente por ter um padrão de escrita acima da média geral das pessoas. Mas, escrever supostamente melhor que os outros não é um critério suficiente para legitimar que alguém atue nesse papel. 

Considero, em certa dimensão, inadequada a diferenciação entre desenvolvedores enquanto profissionais de carreiras técnicas e UX Writers como profissionais de carreiras humanas. Pois, um bom UX Writer precisa, obrigatoriamente, dominar todas as camadas técnicas da gramática portuguesa. 

E o que é uma gramática? Gramática é o conjunto de regras que determina o que é certo — e, por pressuposto, o que é errado — na articulação de uma língua, de forma tão padronizada quanto qualquer linguagem de programação. 

Assim como a gramática portuguesa, existem as gramáticas inglesa, espanhola, chinesa, italiana, árabe etc. O fato é que a nossa é uma das gramáticas mais complexas do mundo. Trabalhar como escritor profissional de Língua Portuguesa não é para amadores e ela jamais poderia ser renegada como um conhecimento de segunda categoria em ambientes de tecnologia. Como se, para programar, um desenvolvedor precisasse das mais altas certificações; mas, para fazer o trabalho de um UX Writer, qualquer pessoa bem intencionada servisse para a função. Porque não serve.

Quando pensamos em linguagens de programação como SQL, JAVA, Swift, entre outras, todas elas têm algo essencial em comum: um conjunto de regras sintáticas e semânticas para implementação de um código fonte. E qual é o substrato mais básico da Língua Portuguesa? Justamente sintaxe e semântica. 

É claro que o trabalho de um escritor (lembre-se que um UX Writer é um escritor) envolve muitos fatores subjetivos extremamente importantes que também precisam ser problematizados no exercício da função, como estilística e ideologia, por exemplo. Mas, aqui, estou defendendo o quanto os conhecimentos técnicos de um UX Writer bem capacitado e um desenvolvedor estão no mesmo nível de valor e complexidade.  

Porém, esse fato ainda não foi incorporado totalmente à visão automática de gestores e clientes. Além da contratação massiva de UX Writers mal capacitados, como citei no início do artigo, há um outro extremo que é a não contratação de alguém específico para executar tais trabalhos.

Quando uma consultoria ganha um projeto de tecnologia, cliente nenhum questiona a necessidade indispensável de um ou mais programadores no squad. Porém, não raro, hesitam muito no investimento em um UX Writer que atue como guardião da comunicação. Pressupondo que, pelo fato de todos os profissionais do squad serem alfabetizados, cada um deles pode fazer um pouco desse trabalho informalmente. Afinal, é só um textinho aqui e outro ali. 

Da mesma forma que um programador usa uma linguagem de programação para construir uma API que permita ao usuário tomar qualquer ação dentro de um aplicativo, o UX Writer usa a Língua Portuguesa a fim de criar sinapses que incitem o usuário a tomar aquela ação. 

Em suma, assim como um programador se comunica com máquinas para obter os comportamentos desejados, um UX Writer se comunica com o usuário, através de processos cognitivos complexos, para que ele compreenda e responda aos estímulos desejados. Trabalho que envolve domínio de todas as camadas técnicas da linguagem (de programação ou textual) e que, portanto, nem todas as pessoas estão capacitadas a executar.

As semelhanças são várias, mas é claro que existem muitas diferenças entre programação e escrita profissional. Infelizmente, a maior delas está no fato de que uma é super valorizada e a outra ainda é tratada como supérflua. A pergunta que fica é: até quando?

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