Open Source no Brasil: Desenvolvimento como Potência Global em Software

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12/11/2020
Jomar Silva
Jomar Silva
Head of Technology

Jomar Silva é engenheiro eletrônico, especialista em Padrões Abertos e Open Source.

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Se você não é uma pessoa do mundo da tecnologia, talvez nunca tenha escutado falar em Open Source ou pode não saber o que, de fato, significa a expressão. Traduzida como código aberto, a palavra representa um movimento global de desenvolvimento colaborativo de tecnologia, uma vez que se refere a softwares que as pessoas podem modificar como e quantas vezes quiserem, além de compartilhar mundo afora. É como se fosse uma receita de bolo publicada na internet para quem quiser testar, contribuir com feedbacks e aprimorar com detalhes específicos, além de poder assar o seu próprio bolo ou até ganhar dinheiro comercializando ele. Para quem acha a analogia exagerada, saiba que até o mundo da cerveja já foi "contaminado" pela cultura Open Source e existem, atualmente, receitas, equipamentos, softwares de controle e projetos completos para cervejarias caseiras, todos eles com código aberto.

Na primeira década deste século, o Brasil foi uma grande referência no setor, sediando diversos eventos de comunidades, como o Fórum Internacional de Software Livre (FISL) que, em sua 10ª edição, em 2009, reuniu mais de 10 mil participantes para debater assuntos técnicos, políticos e sociais por meio de palestras e reuniões, com participação de grandes nomes do cenário internacional, além das principais empresas globais de tecnologia. O que antes era um movimento voltado apenas para desenvolvedores apaixonados por um modelo disruptivo de desenvolvimento colaborativo de tecnologia e conhecimento, ganhou escala e passou a fazer parte das estratégias e do dia a dia das empresas que têm em seu DNA o objetivo de desenvolver produtos e soluções tecnológicas que facilitam a vida das pessoas.

Passado o frisson dos eventos de comunidade, o que vemos quase 10 anos depois, é que o código aberto está tão inserido em nosso cotidiano que, por vezes, deixamos passar despercebido. Muitos de nós carregamos um Linux dentro do bolso hoje em dia (Android), assistimos a TVs pelo Linux (SmartTVs), acessamos à Internet usando Linux (nos roteadores wi-fi) e até conversamos com o Linux (assistentes de voz), sem contar os milhares de componentes de software open source utilizados para o desenvolvimento de apps, sites e, principalmente, a computação onipresente na nuvem ou em dispositivos IoT. Não é exagero falar que nossa vida high tech atual só é possível pela ampla adoção de código aberto pela indústria de tecnologia.

Você pode se perguntar como esta revolução toda aconteceu e como as empresas ganham dinheiro com isso, e a resposta é a inovação. Um novo modelo de desenvolvimento no qual a competição e a colaboração trabalham juntas, permitindo que a inovação seja capturada em qualquer ponto do ecossistema. O sistema operacional GNU/Linux é um exemplo disso. Empresas que competem arduamente em suas áreas de atuação colaboram no desenvolvimento não apenas do kernel e do sistema operacional, mas também em uma série de softwares, bibliotecas e frameworks que o complementam.

Com esta abordagem, fabricantes de componentes de hardware garantem que a performance de seus equipamentos será maximizada pelo software otimizado. Empresas que vendem serviços de suporte e customização garantem, além da longevidade dos softwares, o pleno conhecimento dele e a capacidade de adequá-lo às necessidades dos seus clientes e, finalmente, grande parte dos serviços de nuvem disponíveis atualmente só é possível pelo uso de software de código aberto.

Para quem já acompanha esta evolução desde o final da década de 90, é interessante notar como os desenvolvedores de software, atualmente, utilizam softwares de código aberto como premissa básica de grande parte do que desenvolvem no dia a dia. Porém, uma parcela pequena destes desenvolvedores contribuem, de fato, para os projetos de código aberto e, aqui, reforço que contribuições não são apenas código fonte. Documentação e relatórios detalhados de bugs são duas formas fundamentais de contribuição que auxiliam todo o ecossistema e, no caso dos bugs, ajudam os desenvolvedores dos projetos a identificar rapidamente áreas de atenção e concentrar ali os seus esforços.

Algumas empresas brasileiras possuem, hoje em dia, projetos de código aberto e destaco aqui os projetos desenvolvidos pela Zup, que podem ser acessados através do site http://opensource.zup.com.br.

Existem três projetos atualmente com código aberto que, integrados, entregam uma tech foundation para o desenvolvimento e deploy de soluções de software utilizando as técnicas mais modernas em suas áreas. O Charles é um software para Continuous Delivery (CD) que, além de prover toda a segurança e confiabilidade necessária para colocar as aplicações em produção, permite que sejam criados círculos de usuários baseados em critérios flexíveis, permitindo principalmente o teste de hipótese em ambientes de produção. Já pensou em reduzir o tempo entre o surgimento de uma ideia de funcionalidade e a validação desta em ambiente real, sem afetar a imensa maioria dos usuários da sua aplicação? É isso que o Charles entrega.

O Beagle é um framework que implementa o conceito de Server-Driven UI, permitindo que as interfaces de aplicativos iOS, Android e Web sejam geradas de forma dinâmica através de um backend. Possibilita ainda a sua utilização com frameworks nativos e incorporação em projetos já existentes, como uma área de experimentação em ambiente de produção.

O terceiro projeto Open Source da Zup é o Ritchie, uma interface de linha de comando (CLI) expansível e customizável através de diversas linguagens de programação para automatizar tarefas repetitivas do dia a dia, podendo se integrar com bibliotecas já existentes ou outras CLIs. Imagina um desenvolvedor começar a trabalhar em sua empresa e, em poucas horas, ter todo o seu ambiente de desenvolvimento integrado com a empresa configurado em alguns minutos, mesmo sem conhecer todos os detalhes de infraestrutura e serviços disponíveis. É isso que o Ritchie te permite fazer, e permite muito mais. É um "canivete suiço" para qualquer desenvolvedor e auxilia, ainda, a implementar o conceito de no-ops, reduzindo as dependências entre áreas de devops e desenvolvimento.

De acordo com o Evans Data Corporation, em 2024 o Brasil alcançará a 5ª posição como país com o maior número de desenvolvedores de software no mundo (passando o Japão), e este crescimento está chamando a atenção de empresas no mundo todo. Estamos deixando de ser meros consumidores de tecnologia e vamos passar a ser um importante player global no desenvolvimento de software e o software de código aberto é fundamental para não apenas absorvermos com maior rapidez o estado da arte do que é desenvolvido internacionalmente, mas também para mostrar ao mundo -  através de código fonte - todo o potencial das nossas pessoas desenvolvedoras.

Se você nunca contribuiu com um projeto de código aberto, ou se tem curiosidade em saber como eles funcionam ou são desenvolvidos, nada como iniciar a sua jornada com projetos desenvolvidos no Brasil, onde grande parte das equipes fala o nosso idioma e estão acessíveis e pra lá de curiosos para ouvir a sua opinião sobre os projetos e, é claro, aceitar as suas contribuições.

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